top of page

Educação Patrimonial & Ensino de História

Uma proposta didática

Este site é parte complementar da dissertação de mestrado com o título: Educação Patrimonial, Ensino de História e História Oral: A feira livre como espaço de aprendizagem histórica.

A feira livre: espaço de aprendizagens

Você observa a feira livre como simples ponto comercial a céu aberto?

Pois saiba que as feiras livres tem um intima relação com o desenvolvimento da comunidade em que está inserida. A origem histórica delas é bastante antiga, estando ligada ao desenvolvimento das primeiras cidades. Elas existem desde que o homem começou a estocar alimentos para o seu consumo, portando, são um dos mais antigos meios de comércio, e ainda hoje usamos para vender produtos alimentícios, artesanato, roupas, produtos de limpeza entre outros.

As feiras livres como conhecemos atualmente foram construídas ainda durante o período medieval, com as trocas de mercadorias. Posteriormente com a expansão marítima europeia e a consecutiva colonização do “novo mundo” elas passaram por transformações que intensificaram seu protagonismo no cotidiano das comunidades. No Brasil temos registos da realização delas apenas depois da chegada dos portugueses, durante o período colonial.

No que tange a significância delas para os sujeitos, podemos compreender que elas são um importante meio de comércio para os agricultores, pois lhes permite vender seus produtos diretamente aos consumidores, sem intermediários. Elas também são importantes para os consumidores, pois lhes permite comprar produtos de qualidade a preços mais baixos. Além disso, as feiras são um importante meio de interação social, pois permitem que as pessoas se encontrem e troquem experiências.

Além disso, as feiras livres são fundamentais para a economia local, pois são espaços onde pequenos produtores e comerciantes podem vender seus produtos. Elas também são valiosas para a geração de emprego e renda. Por fim, também são relevantes para a saúde pública, pois são espaços onde é possível encontrar alimentos frescos e saudáveis. Além de se constituírem enquanto ambientes significativos para a educação, pois são recintos onde as pessoas podem aprender sobre a cultura do lugar e sobre os produtos que são oferecidos.         

As feiras livres como espaço de aprendizagem histórica

As feiras livres são ótimos espaços de aprendizagem para os jovens. Eles podem aprender sobre a cultura local, os costumes e as tradições, além de conhecer os produtos e serviços oferecidos. Além disso, também podem ser incentivados a refletirem sobre a economia local, como os preços dos produtos variam de acordo com a oferta e procura. Os estudantes também podem utilizar os espaços das feiras para compreender a importância da preservação ambiental e da boa alimentação, pois muitos produtos vendidos nas feiras livres são orgânicos e naturais. Além disso, esses jovens podem ser levados a compreenderem a feira como local de intensa diversidade cultural, pois elas são frequentadas por pessoas de todas as origens.

Portanto, a feira livre é um importante espaço de interação social e de troca de experiências, onde se pode encontrar produtos locais e regionais. É um lugar onde se pode aprender sobre a cultura local, suas tradições e costumes. Podem ser usadas como um espaço para a realização de oficinas, palestras e outras atividades educativas que visam a conscientização sobre a importância da preservação do patrimônio e da cultura local. Além disso, é possível realizar atividades lúdicas e culturais que promovam a interação entre as pessoas e a valorização da cultura comunidade.

Patrimônio Cultural

"O patrimônio cultural é o que nos une"

Luiz Fernando de Almeida

Educação patrimonial

Conhecendo as etapas da metodologia.

Trata-se de um processo permanente e sistemático de trabalho educacional centrado no Patrimônio Histórico Cultural como fonte primária de conhecimento e enriquecimento individual e coletivo. A partir da experiência e do contato direto com as práticas e manifestações da cultura, o trabalho da Educação Patrimonial busca levar as crianças e adultos a um processo de conhecimento, apropriação e valorização de sua herança cultural, capacitando-os para um melhor usufruto destes bens, e propiciando a geração e a produção de novos conhecimentos, num processo contínuo de criação cultural. Como uma aliada do ensino de História a educação patrimonial possibilita a pesquisa e exploração do local em que se vive. Afinal é mais interessante para os adolescentes perseguirem a origem do seu local de nascimento ou adoção do que estudar locais com os quais não tem qualquer envolvimento. Logo, a educação patrimonial é uma excelente estratégia de ensino da História local.

A metodologia específica da Educação Patrimonial pode ser aplicada a qualquer evidência material ou manifestação da cultura, seja um objeto ou conjunto de bens, um monumento ou um sítio histórico ou arqueológico, uma paisagem natural, um parque ou uma área de proteção ambiental, um centro histórico urbano ou uma comunidade da área rural, uma manifestação popular de caráter folclórico ou ritual, um processo de produção industrial ou artesanal, tecnologias e saberes populares, e qualquer outra expressão resultante da relação entre os indivíduos e seu meio ambiente.

HORTA, Maria de Lourdes Parreira; GRUNBERG, Evelina; MONTEIRO, Adriane Queiroz. Guia Básico de Educação Patrimonial. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional / Museu Imperial, 1999.

Metodologia

As Etapas da metodologia 

A metodologia da Educação Patrimonial pode levar os professores a utilizarem os objetos culturais na sala de aula ou nos próprios locais onde são encontrados, como peças “chave” no desenvolvimento dos currículos e não simplesmente como mera “ilustração” das aulas.

Observação

Esta etapa consiste na identificação do objeto, da manifestação, da categoria de patrimônio a qual pertence. As suas funções e os significados para a comunidade. Como atividade para os participantes propõem-se exercícios de percepção visual/sensorial, por meio de perguntas, manipulação, experimentação, medição, anotações, comparação, dedução, jogos de detetive entre outros.

Sugestões de como realizar.

Selecione fotos e vídeos sobre a feira livre da sua cidade e faça apresentação para os alunos da turma. Em cada material faça mostre as categorias de patrimônio que eles representam. Se atente para a diferenciação existente entre as categorias, e busque sempre a devolutiva dos discentes para perceber se estão compreendendo o que está sendo trabalhado. Nesse sentido, é válido reforçar os patrimônios culturais imateriais, que abrangem as expressões culturais, tradições e feitos comuns de um determinado grupo, ofícios estes que são eternizados e passados entre as gerações.

Exemplo: A fabricação farinha de mandioca de Bragança representam modos de fazer. Busque explorar a história que o “saber fazer” desse objeto conta.

Registro

Nesta etapa temos como objetivo fixar o conhecimento construído anteriormente, aprofundar a observação e a analise crítica sobre os objetos. Além disso, procuramos o desenvolvimento da memória, do pensamento lógico, intuitivo e operacional dos estudantes. Nesse viés, é o momento de reforçar os conteúdos e propõe-se que os estudantes expressem o que aprenderam nas aulas.

 

Sugestões de como realizar:

Sugere-se que os alunos elaborem a representação da Feira. Eles podem utilizar: desenhos, descrição verbal ou escrita, gráficos, fotografias, maquetes,

mapas e plantas baixas, entre outros instrumentos.

Exploração

Nessa etapa os alunos executaram a aula de campo, ou seja, a visita guiada a Ferira livre. Com a exploração e analise do bem cultural com discussões em sala de aula, questionamentos, avaliações e pesquisas em outros lugares como (bibliotecas, museus, arquivos, cartórios, jornais, revistas, entrevistas com amigos, familiares e pessoas da comunidade), espera-se que os discentes desenvolvam as capacidades de análise, e espirito crítico, interpretando as evidencias e significados.

 

Preparação para a visita guiada:

O professor responsável deve primeiramente realizar uma visita prévia ao local para conversar com os possíveis entrevistados e prepará-los para a visita dos alunos. Observamos que deve ser de suma importância que os feirantes saibam quais são os objetivos da atividade e que concordem com a sua presença durante o trabalho deles e que estejam abertos a conversar com os estudantes.

Para essa atividade pensamos ser imprescindível que o docente elabore um roteiro da execução, como se fosse um roteiro turístico, não obstante o passeio à feira é uma aula de História. Apresente a história da cidade, a importância daquele local para a dinâmica social e econômica do município, isto é, contextualize esse espaço urbano enquanto andam pelo ambiente da feira. Defina o tempo e os locais que serão utilizadas para as paradas e os possíveis feirantes entrevistados.

Deve-se ficar atento para lembrar os alunos do material que eles devem levar, como por exemplo: Caderno, caneta, câmera fotográfica e gravador. é sugerido também que os discentes levem suas garrafas de água e se possível passem protetor solar e utilizem roupas em acordo com a atividade que realizaram.

 

Proposta de atividade:

Em pequenos grupos, que devem ser separados previamente pelo docente, os alunos farão entrevistas com os feirantes. Para isso utilizarão um instrumento da história oral: o formulário semiestruturado. Com ele o professor e o grupo farão um roteiro de perguntas sobre a atividade e sua história no espaço pesquisado. É valido ressaltar que é muito importante que as perguntas sejam adequadas a cada feirante e ao seu ramo de atividade.

Sugerimos que as perguntas sejam produzidas pelos alunos com as intervenções necessárias do docente, e com a finalidade que julgarem acertadas.

Material necessário para a atividade: Caderno, caneta e/ou lápis, câmera de fotos e vídeo, e o documento de sessão de direito de entrevista.

A seguir apresentaremos algumas sugestões de perguntas. 

  1. Como ocorre a divisão do espaço das barracas na feira?

  2. Quais os problemas que você acha que a Feira Livre apresenta atualmente?

  3. Quais as mudanças você sugere a serem feitas no espaço da feira?

  4. A prefeitura participa da organização da feira?

  5. Como se dá essa participação?

  6. Há quanto tempo você é feirante?

  7. O que você vende na feira de domingo?

  8. Que outros produtos você já vendeu?

  9. O que lhe motivou a ser feirante?

  10. Seus familiares também são feirantes? O que eles vendem?

  11. Como você aprendeu essa atividade? (Caso envolva a fabricação, como a tapioca e artesanatos).

  12. O que lhe levou a escolher estes produtos para vender?

Apropriação

A etapa da apropriação é a fase para que os estudantes mostrarem o entendimento, a identidade, e os laços afetivos desenvolvidos pelos estudantes com o bem cultural que foi trabalhado. O objetivo é fazer com que os alunos internalizem, e desenvolvam a capacidade de autoexpressão, apropriação, participação criativa, e a valorização do bem cultural.

 

Sugestão de atividade:

Exposição de fotos: As fotos produzidas durante toda a atividade de pesquisa podem render uma exposição de fotos no hall da escola. Para isto, os educandos devem organizar painéis com descrição e detalhes das fotos. Além disso é valido ressaltar que os estudantes sejam incentivados a exporem o trabalho desenvolvido por meio da exposição oral. Deve-se atentar que as fotos sejam impressas em tamanhos relativamente grandes e com boa qualidade, com o objetivo de serem compreensíveis para os observadores delas.

 

Documentário sobre o processo de entrevista: Os alunos devem elaborar um mini documentário sobre a atividade realizada no ambiente da Feira livre. Para isto, devem se valer de fotos e vídeos produzidos nas entrevistas, um pouco de imagens atuais e antigas da feira, com o objetivo de permitir a observação das mudanças ocorridas com o tempo. O documentário deve ressaltar o processo de transformação histórica ao longo dos anos e sua importância para a sociedade contemporânea.

 

Jornal impresso: os alunos podem confeccionar um jornal impresso com a história da feira e dos feirantes entrevistados. Sugerimos que o professor ao orientar os estudantes procure incentiva-los a criarem colunas para tópicos específicos, criados de acordo com os assuntos e perguntas produzidas na etapa de exploração.

História oral

Em nosso trabalho com a Feira livre de Bragança do Pará utilizamos algumas ferramentas da História Oral. A metodologia é muito utilizada nas pesquisas acadêmicas de História e outras ciências humanas como forma de produzir fontes quando se trabalha com o temo presente, ou quando não se dispões de fontes escritas sobre o que se está a pesquisar.

A história oral é uma excelente metodologia para ser levada as salas de aulas. Através da história oral podemos criar uma maior interação e dialogo entre os alunos, professores e a comunidade com que pretendemos dialogar e estabelecer uma relação mais participativa e dinâmica. Além de se constituir enquanto um instrumento que permite exercitar a escuta e o convívio entre os diversos grupos sociais, sendo, portanto, um importante instrumento de cidadania.  Por meio da história oral os alunos podem ouvir histórias contadas pelos mais velhos e aprender sobre os fazeres que esses dominam. A partir disso os estudantes podem compreender que a história é feita pela ação dos mais variados indivíduos, pelas lutas travadas cotidianamente por estes e não somente por grandes homens e seus grandes feitos. Por meio disso, os alunos se percebem como sujeitos históricos e que podem exercer protagonismo no grupo social a que fazem parte.

No que se refere ao estudo do local, a história oral abre a possibilidade de estabelecer um olhar mais ampliado sobre a escola, os mercados, os bairros e sobre o município que os alunos e pesquisadores estão inseridos. Por meio dela podemos ter acesso aos registros, lembranças e memórias da comunidade. No entanto, não basta saímos com gravadores e fazermos perguntas aleatórias por aí. Precisamos ter algumas precauções e cuidados aos utilizarmos a história oral na sala de aula.

Primeiramente devemos ter o cuidado conceitual em relação a memória. Devemos levar em conta que a memória não é rígida, exta e espontânea. Ao contrário, ela é mutável, seletiva e coletiva. Fazemos o exercício de lembrar de acordo com vários mecanismos internos e externos exercidos de forma espontânea ou não., lembramos do que é importante e suprimimos o que não é relevante para o enredo que construímos ou é doloroso para ser trazido a superfície que há muito havia sido empurrado as profundezas da mente. Também incorporamos memórias de eventos do grupo ao qual pertencemos, mesmo que não tenhamos presenciado por nós mesmos, já que a memória coletiva é parte indissociável de nossa identidade cultural.

Segundo a história oral costuma ser uma forma de ouvir as pessoas comuns. Mas não estaremos “dando voz” as pessoas. O que procuramos fazer é ouvi-las. Pois normalmente trata-se de grupos que não espaço de fala na mídia, e até mesmo são negligenciados nas tomadas de decisões sobre as políticas públicas pelas quais são atingidas. Também não se trata de procurar ou arrancar as verdades das pessoas, mas sim de um processo de escuta atenta, percebendo a subjetividade dos entrevistados, sempre em consonância com o cumprimento da ética e do respeito com o outro. Nesse sentido, é excelente para ser trabalhado na escola pelos professores pois traz a visibilidade para o fato de não existir uma única verdade e sim múltiplas versões de um mesmo fato que pode variar de acordo com o lugar e do sujeito entrevistado.

História oral
de vida:

Nessa categoria de história oral é de praxe que as entrevistas resultem em longas horas de gravação da conversa, pois o entrevistado narra toda a sua trajetória de vida. Nela cabe ao entrevistador incentivar a conversa e puxar os fios da memória do entrevistado, provocar lembranças em busca de aprofundamento e mais detalhes sobre o indivíduo, do ambiente em que ele vive e de episódios marcantes e de como são suas relações sociais. Essa modalidade exige diálogo e confiança entre o entrevistado e o entrevistador, já que podem ter que se encontrarem várias vezes durante a realização do trabalho.

Entrevista semiestruturada:

Essa modalidade de entrevista busca conhecer através da memória do entrevistado um assunto específico, geralmente o tema do projeto de pesquisa. Para isso se elabora um roteiro de perguntas, com um assunto definido. Como um fato que o entrevistado testemunhou, um conhecimento que domina, uma profissão que exerceu e etc. No ambiente escolar é a modalidade mais prática e acessível de ser utilizada. Pois, geralmente se faz entrevista dentro de um tema definido no planejamento curricular.

 

Atenção com alguns aspectos

  • Todos devem ser informados do objetivo do trabalho de história oral e qual será o destino do projeto;

  • Sempre entrevistar somente com a autorização do entrevistado;

  • Caso o entrevistado se oponha a divulgação do material ou de algum trecho da entrevista, você deve atender o pedido;

  • Se algum trecho da entrevista trouxer algum risco para o entrevistado você deve não o divulgar;

  • Tenha o consentimento do entrevistado por uma autorização por escrito. Tenho duas cópias assinadas, uma para você e outra para o entrevistado;

  • Treine os estudantes para a realização das entrevistas. Além de saberem exatamente o objetivo das entrevistas os estudantes devem ter domínio dos equipamentos, saber previamente um pouco do seu entrevistado e conhecer as perguntas.

bottom of page